Crédito do Trabalhador supera R$ 117 bilhões em um ano e amplia acesso, mas juros elevados ainda preocupam
20/03/2026
Programa beneficia quase 10 milhões de trabalhadores e impulsiona inclusão financeira, mas discrepâncias nas taxas e ausência de teto no consignado privado acendem alerta

O Programa Crédito do Trabalhador completa um ano consolidando resultados expressivos. Desde o lançamento, em março de 2025, até o último dia 17, já foram movimentados R$ 117,1 bilhões em empréstimos, beneficiando milhões de trabalhadores em todo o país.
No período de 21 de março a 31 de dezembro de 2025, foram contratados R$ 94,2 bilhões, incluindo operações por tombamento. Já entre janeiro e 17 de março deste ano, a plataforma do Crédito do Trabalhador registrou R$ 26,3 bilhões em empréstimos concedidos aos trabalhadores.
Segundo o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, o programa desempenhou um papel fundamental na inclusão financeira de trabalhadores que antes não tinham acesso a linhas formais de crédito. “O Crédito do Trabalhador permitiu que pessoas que antes recorriam apenas a agiotas tivessem acesso a empréstimos seguros. Além disso, possibilitou que outros saíssem do cheque especial ou quitassem o Crédito Direto ao Consumidor (CDC), muitas vezes com juros elevados”, destacou.
“O Crédito do Trabalhador se consolida como uma das principais políticas de ampliação do acesso ao crédito no país. Ao mesmo tempo, o governo segue aprimorando o programa, com foco na redução de juros, na inclusão de garantias e no fortalecimento da proteção aos trabalhadores”, acrescentou o ministro.
No total, foram registrados 20.942.414 contratos, beneficiando 9.474.437 trabalhadores, com valor médio de R$ 12.359,92 por pessoa. Um dado relevante é que mais de R$ 33,2 bilhões foram destinados a trabalhadores que recebem entre um e quatro salários mínimos, reforçando o caráter social do programa ao ampliar o acesso ao crédito para a população de menor renda. Janeiro de 2026 marcou o maior volume de contratações desde o lançamento da plataforma, com R$ 13,1 bilhões em empréstimos concedidos diretamente aos trabalhadores.
Segundo o ministro Luiz Marinho, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) acompanha de perto a implementação do programa, com atenção especial às taxas de juros e à prevenção de práticas abusivas por parte de algumas instituições financeiras. Atualmente, a taxa média de juros mensal é de 3,67%, valor considerado inferior ao praticado em outras modalidades de crédito, como cartão de crédito e Crédito Direto ao Consumidor (CDC).
Os juros estarão entre os principais temas da próxima reunião do Comitê Gestor do Crédito do Trabalhador, marcada para o dia 26 de março, com a participação do MTE, da Casa Civil e do Ministério da Fazenda. Entre os pontos em pauta está uma proposta para coibir abusos nas taxas de juros, com o objetivo de assegurar que o programa continue oferecendo crédito mais acessível aos trabalhadores brasileiros.
Outra proposta que pode ajudar a reduzir as taxas de juros é a utilização de garantias, como até 10% do FGTS e 40% da multa rescisória. A expectativa é que essa iniciativa seja implementada ainda neste semestre, com regras específicas definindo seu funcionamento.
Os números reforçam o crescimento acelerado da modalidade. Antes do programa, a média mensal de concessões do consignado privado era de cerca de R$ 1,6 bilhão. Após a implementação, esse valor saltou para aproximadamente R$ 5,8 bilhões — um aumento de 263%, segundo dados do Banco Central.
Outro indicador relevante é a inadimplência. Após registrar alta entre 2022 e 2024, o índice passou a cair de forma consistente com a expansão do programa, sinalizando maior estabilidade nas operações.
Apesar dos avanços, o crescimento do crédito também trouxe um ponto de atenção importante: as taxas de juros.
Embora a média esteja abaixo de outras modalidades, análises mostram uma grande discrepância entre os juros cobrados pelas instituições financeiras. Em alguns casos, há indícios de cobrança de taxas abusivas.
O economista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, Gustavo Cavarzan, explica que parte dessa diferença é esperada, mas não justifica os extremos observados. “É natural que as taxas no setor privado sejam maiores, já que a garantia está vinculada a contratos de trabalho com maior rotatividade. Diferentemente do setor público, que tem estabilidade, ou do INSS, onde o risco é menor, o crédito privado carrega mais incerteza. Ainda assim, o que chama atenção é a enorme discrepância de juros entre as instituições financeiras”, afirma.
Segundo ele, esse cenário evidencia a necessidade de maior regulação. “A ausência de um teto de juros, como existe no consignado do INSS, abre espaço para que algumas instituições pratiquem taxas abusivas”, completa.
Diante desse cenário, cresce a necessidade de mecanismos mais eficazes de regulação e transparência, para garantir que o programa continue cumprindo seu papel de ampliar o acesso ao crédito sem penalizar os trabalhadores com custos excessivos.
Após um ano de expansão, o Crédito do Trabalhador se consolida como uma política relevante de inclusão financeira. O desafio agora é avançar na redução das taxas e no combate aos abusos, garantindo que o crédito acessível também seja justo.
Fonte: Contraf-CUT
